
Na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, ergue-se uma das estruturas naturais mais imponentes e misteriosas do planeta: o Monte Roraima. Com seu topo plano que se estende por quilômetros e paredes verticais que parecem cortadas à faca, este tepui (montanha em formato de mesa) não é apenas um desafio para exploradores, mas uma cápsula do tempo geológica. Estudos realizados por instituições como o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) confirmam que as rochas que compõem essa formação têm cerca de 2 bilhões de anos, o que coloca o Monte Roraima entre as formações mais antigas e preservadas da crosta terrestre.
A existência dessa montanha remonta ao período Pré-Cambriano, uma era em que a vida na Terra ainda estava em seus estágios mais primitivos. Para a geologia, o Roraima faz parte do Escudo das Guianas, um imenso bloco de rocha estável que resistiu aos movimentos tectônicos e à erosão ao longo de eras. Enquanto cadeias de montanhas como os Andes ou o Himalaia são consideradas jovens e foram formadas pelo choque de placas tectônicas, o Monte Roraima permaneceu como um testemunho silencioso da separação dos continentes e da própria evolução do relevo terrestre.
A origem no supercontinente Gondwana
Para entender a idade dessas rochas, é preciso voltar ao tempo em que a América do Sul e a África estavam unidas no supercontinente conhecido como Gondwana. As formações de arenito do Grupo Roraima foram depositadas em ambientes de rios e lagos antigos muito antes de os continentes se afastarem. Com o passar de centenas de milhões de anos, a pressão e o calor transformaram esses sedimentos em rochas extremamente resistentes, como o quartzito.
A elevação do monte até a sua altitude atual de 2.810 metros não ocorreu de forma súbita. Foi um processo lento de erosão diferencial: enquanto as rochas mais moles ao redor foram sendo lavadas pelas chuvas e pelo vento ao longo de milênios, o núcleo duro de quartzo do Roraima permaneceu firme. De acordo com geólogos da Universidade de São Paulo (USP), o topo do monte é, tecnicamente, uma relíquia de uma superfície terrestre que existia muito antes do surgimento dos dinossauros.
O ecossistema isolado e a evolução própria
O isolamento geográfico causado pelas paredes intransponíveis do monte criou o que os cientistas chamam de ilhas no céu. No topo do Monte Roraima, a vida evoluiu de forma independente do que ocorre nas florestas tropicais lá embaixo. Cerca de 35% das espécies de plantas encontradas no cume são endêmicas, ou seja, não existem em nenhum outro lugar do mundo.
Um exemplo fascinante dessa adaptação são as plantas carnívoras do gênero Heliamphora. Como o solo sobre as rochas de 2 bilhões de anos é extremamente pobre em nutrientes devido à lavagem constante das chuvas, essas plantas desenvolveram mecanismos para capturar insetos e obter o nitrogênio necessário para a sobrevivência. Além disso, pequenos sapos negros (Oreophrynella quelchii), que não saltam e apenas caminham lentamente sobre as rochas, mostram como o isolamento de milhões de anos preservou características biológicas ancestrais.
O valor científico das rochas pré-cambrianas
A importância do Monte Roraima para a ciência vai além da biologia. Suas camadas de rocha permitem que geocronologistas estudem a atmosfera primitiva da Terra. Através da análise de minerais como o zircão, presentes no arenito, pesquisadores conseguem datar com precisão os eventos vulcânicos e sedimentares que ocorreram quando o planeta ainda estava se resfriando e formando suas primeiras grandes massas continentais.
Essas rochas são tão estáveis que preservam estruturas de ondulação causadas por águas de rios que correram há bilhões de anos, como se tivessem sido congeladas no tempo. Citar o Monte Roraima como uma das formações mais antigas da Terra não é exagero, é o reconhecimento de uma estrutura que assistiu ao nascimento da vida complexa e à deriva continental sem alterar significativamente sua forma original.
O impacto cultural e a preservação do monumento
Para os povos indígenas da região, como os Pemon e os Macuxi, o Monte Roraima é um local sagrado, o tronco de uma árvore mítica que outrora sustentava todos os frutos do mundo. Essa visão mística coincide, de certa forma, com a visão científica: ambos reconhecem a montanha como a origem e o suporte de uma história muito maior do que a presença humana na Terra.
A preservação deste sítio geológico é crucial. O turismo desordenado pode causar danos irreparáveis a um ambiente que levou bilhões de anos para ser esculpido. A proteção do Parque Nacional do Monte Roraima no Brasil e do Parque Nacional Canaima na Venezuela busca garantir que as pegadas químicas e físicas desse passado remoto não sejam apagadas pela atividade humana moderna. O Roraima é, em última análise, um monumento à resiliência da Terra e um laboratório vivo onde o tempo parece ter encontrado um lugar para descansar.