
Nas profundezas de uma das florestas mais remotas e inexploradas do mundo, nas montanhas da Nova Guiné, um animal que a ciência considerava perdido para sempre emergiu das sombras. O canguru-arbóreo de Wondiwoi, uma criatura enigmática e de uma beleza singular, não era visto por um cientista ocidental desde 1928. Por 90 anos, ele foi um fantasma, conhecido apenas por um único espécime coletado em uma expedição e que hoje repousa em um museu em Londres. Muitos temiam que ele tivesse se juntado à triste lista de espécies extintas.
Mas em uma reviravolta digna de um filme de aventura, um botânico amador britânico, em uma busca obstinada e quase sem esperanças, conseguiu o impossível: ele redescobriu o canguru-arbóreo de Wondiwoi. As primeiras fotografias da história de um indivíduo vivo foram capturadas, mostrando ao mundo que este tesouro da biodiversidade ainda existe, escondido no topo de um mundo perdido de florestas de nuvens e penhascos íngremes. A redescoberta é um farol de esperança para a conservação, provando que nunca devemos desistir das espécies que consideramos desaparecidas.
A história de um fantasma biológico
A única vez que a ciência ocidental havia encontrado um canguru-arbóreo de Wondiwoi foi em 1928, quando o famoso biólogo evolucionário Ernst Mayr estava explorando a Península de Wondiwoi, na parte indonésia da Nova Guiné. Ele coletou um espécime, que foi enviado para a Europa, descrito, nomeado e, depois disso, silêncio. Por nove décadas, nenhuma outra expedição conseguiu encontrar o animal. A região é extremamente remota, de difícil acesso e coberta por uma selva densa e montanhosa, o que tornou as buscas quase impossíveis.
Com o tempo, a esperança de reencontrar a espécie foi diminuindo. O canguru-arbóreo de Wondiwoi foi listado como uma das “25 espécies perdidas mais procuradas” pela Global Wildlife Conservation. Ele era um dos maiores mistérios da mastozoologia (o estudo dos mamíferos), uma peça perdida no quebra-cabeça da incrível biodiversidade da Nova Guiné. Acreditava-se que, se ainda existisse, sua população seria minúscula e estaria restrita a uma pequena área de floresta nas montanhas mais altas.
A busca de um homem e uma foto milagrosa
A redescoberta não foi obra de uma grande expedição científica com financiamento milionário, mas sim da paixão e da teimosia de um homem: Michael Smith, um botânico amador do Reino Unido. Fascinado pela história do animal perdido, ele viajou para a Península de Wondiwoi em 2018, não com uma equipe de zoólogos, mas com guias locais e um caçador que conhecia a região. A expedição foi árdua, abrindo caminho com facões através de florestas de bambu e samambaias espinhosas.
Depois de dias de busca infrutífera em altitudes mais baixas, eles encontraram o que pareciam ser fezes e marcas de garras frescas que só poderiam ser de um canguru-arbóreo. Seguindo as pistas, eles subiram ainda mais, até uma altitude de cerca de 1.600 metros. No último dia da expedição, quando a esperança já estava se esvaindo, a sorte sorriu. Smith avistou um movimento no alto de uma árvore, a quase 30 metros do chão. Ele levantou sua câmera, deu o zoom máximo e tirou a foto. Lá estava ele: um canguru-arbóreo com a coloração avermelhada e a cauda clara, exatamente como o espécime de 1928. O fantasma era real.
O que é um canguru-arbóreo?
Para quem nunca ouviu falar, a ideia de um canguru que vive em árvores pode parecer estranha. Os cangurus-arbóreos são marsupiais do mesmo grupo dos cangurus e wallabies terrestres da Austrália, mas que evoluíram para uma vida nas alturas. Eles são encontrados nas florestas tropicais da Nova Guiné e no extremo norte da Austrália. Com pernas traseiras fortes para saltar entre os galhos e uma cauda longa para o equilíbrio, eles se parecem com um cruzamento adorável entre um pequeno urso e um macaco.
O Wondiwoi, em particular, é uma das espécies mais impressionantes e menos conhecidas. As fotos de Smith, embora não sejam de alta resolução, forneceram aos biólogos o primeiro vislumbre de como o animal se parece e se comporta em seu habitat natural. A redescoberta é o primeiro passo crucial para que a comunidade científica possa agora estudar sua ecologia, sua população e, o mais importante, criar um plano para proteger seu frágil habitat.
Uma nova chance para a sobrevivência
A notícia da redescoberta do canguru-arbóreo de Wondiwoi ecoou pelo mundo da conservação como uma vitória retumbante. Ela nos lembra que, mesmo em um planeta que enfrenta uma crise de biodiversidade, ainda existem lugares selvagens que guardam tesouros desconhecidos. A sobrevivência deste animal por 90 anos, escondido em seu santuário nas montanhas, é um testemunho da resiliência da natureza.
Agora, a corrida é para garantir que ele não desapareça novamente, desta vez para sempre. A redescoberta coloca uma pressão urgente sobre o governo da Indonésia e as organizações de conservação para proteger as Montanhas Wondiwoi do desmatamento e da caça, as principais ameaças a todas as espécies de cangurus-arbóreos. A jornada de Michael Smith não apenas encontrou um animal perdido; ela nos deu a chance de salvar uma espécie que nem sabíamos que ainda tínhamos.
A esperança que vive no topo do mundo
A história do canguru-arbóreo de Wondiwoi é uma aventura da vida real com a melhor mensagem possível: nunca é tarde demais para a esperança. Ela nos mostra que o mundo ainda está cheio de maravilhas e mistérios a serem descobertos e que a paixão de um único indivíduo pode, de fato, mudar o mundo. O pequeno canguru, em sua fortaleza nas nuvens, é um símbolo poderoso de que a natureza ainda tem a capacidade de nos surpreender, nos inspirar e nos dar uma segunda chance para fazermos a coisa certa.