
O jejum, uma prática milenar com raízes religiosas e culturais, tem sido cada vez mais objeto de estudo científico por seus potenciais benefícios à saúde. Uma pesquisa em particular chamou a atenção da comunidade biomédica: estudos liderados pela equipe do professor Valter Longo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) sugerem que um jejum prolongado de 72 horas (três dias) pode funcionar como um poderoso gatilho para a regeneração do sistema imunológico, forçando o corpo a se livrar de células de defesa antigas ou danificadas e a criar novas.
Essa descoberta, detalhada em artigos publicados em periódicos científicos como o Cell Stem Cell, aponta para o jejum não apenas como uma ferramenta para a perda de peso, mas como uma estratégia potencial para o rejuvenescimento celular. A ideia central é que a privação de nutrientes, especialmente a glicose, ativa um modo de sobrevivência no organismo. Esse modo leva à reciclagem de componentes celulares não essenciais ou ineficientes, incluindo parte das células imunes, para gerar energia e novos recursos, resultando em um sistema de defesa mais eficiente, robusto e renovado.
O Mecanismo da Autocanibalização: Limpando a Casa Imunológica
O principal mecanismo biológico envolvido nesse processo é a autofagia (literalmente “autocomer”), um processo intensamente estudado pelo ganhador do Prêmio Nobel, Yoshinori Ohsumi. Durante o jejum prolongado, a falta de glicose e a diminuição dos níveis de um hormônio de crescimento específico (IGF-1) sinalizam para o corpo que ele está em um estado de escassez. Para conservar energia e matéria-prima, o organismo inicia a autocanibalização de componentes celulares mais fracos ou desgastados.
No sistema imunológico, isso significa que as células linfoides envelhecidas ou danificadas são desmanteladas e utilizadas como combustível ou para construir novas estruturas. Ao “limpar a casa”, o jejum de 72 horas reduz a carga de células imunes não funcionais. Conforme demonstrado nos estudos de Longo, quando o corpo é re-alimentado, ele passa por um rápido processo de reconstrução, usando células-tronco para gerar uma nova leva de células de defesa mais jovens e eficientes, como se o sistema imune fosse reiniciado.
Aplicações na Saúde: Quimioterapia e Imunodeficiência
As implicações clínicas de um jejum que estimula a regeneração imune são vastas e promissoras. Os pesquisadores exploram ativamente o uso do jejum de 72 horas como uma medida de proteção em pacientes submetidos à quimioterapia. Trabalhos publicados na revista Nature e em outros periódicos clínicos indicam que o jejum pouco antes e durante a quimioterapia poderia proteger as células-tronco imunes saudáveis dos danos causados pela medicação, enquanto as células imunes maduras e mais velhas são recicladas.
Após o tratamento, o boom regenerativo ajudaria o sistema imune a se recuperar mais rapidamente, conforme análises de ensaios preliminares. O jejum também está sendo estudado por instituições como o Instituto Nacional de Saúde (NIH) como um potencial tratamento complementar para condições de imunodeficiência ou doenças autoimunes, embora a segurança e a eficácia em larga escala ainda estejam sob investigação rigorosa.
O Fator de Crescimento IGF-1 e a Longevidade Celular
Um dos fatores-chave na ativação dessa regeneração é a redução drástica dos níveis de IGF-1 (Fator de Crescimento Semelhante à Insulina 1) durante o jejum. A pesquisa publicada no Science Translational Medicine enfatiza que o IGF-1 atua como um regulador principal no processo. O hormônio, embora essencial para o crescimento e desenvolvimento, tem sido associado ao envelhecimento e à progressão de algumas doenças quando presente em excesso.
A diminuição do IGF-1 atua como um sinal de stress saudável para o organismo, sinalizando para as células-tronco do sistema imunológico que é hora de entrar em modo de dormência e proteção. Quando o IGF-1 retorna aos níveis normais após o jejum, as células-tronco são ativadas para se diferenciar e produzir novas células sanguíneas e imunes. Essa modulação hormonal é o motor da renovação celular observada nos modelos de estudo da USC.
Advertências e Riscos: Jejum Prolongado Não é Para Todos
É crucial enfatizar que um jejum de 72 horas não é uma prática para ser realizada sem supervisão médica. O estudo que sugere a regeneração foi realizado em um ambiente controlado e não se aplica à população em geral. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e outras agências de saúde alertam que o jejum prolongado pode ser perigoso, especialmente para indivíduos com:
- Diabetes (risco de hipoglicemia severa).
- Distúrbios alimentares ou histórico de desnutrição.
- Baixo peso corporal.
- Mulheres grávidas ou lactantes.
A implementação de qualquer protocolo de jejum que exceda 24 horas deve ser antecedida por uma avaliação médica completa e acompanhada por profissionais de saúde. A desidratação e o desequilíbrio eletrolítico são riscos reais em jejuns prolongados e requerem monitoramento constante para evitar complicações sérias.
Conclusão: Uma Ferramenta Potencial para a Saúde Futura
O estudo que aponta para o jejum de 72 horas como um estímulo para a regeneração das células de defesa, baseado nas pesquisas de instituições como a USC, abre uma porta fascinante para o futuro da medicina preventiva e do tratamento complementar. Embora mais ensaios clínicos sejam necessários para solidificar esses achados, a ideia de usar a restrição calórica como uma forma de “reiniciar” o sistema imunológico é promissora. O jejum, guiado pela ciência e supervisionado por especialistas, pode se revelar uma ferramenta poderosa e natural para otimizar a saúde e a longevidade do nosso sistema de defesa.