
Existe um planeta lá fora que está sendo desmontado aos poucos, como uma peça de roupa que se desfaz fio por fio. O WASP-12b fica a cerca de 1.400 anos-luz da Terra, na direção da constelação de Auriga. Ele é gigante, cerca de 40% mais massivo que Júpiter, e orbita sua estrela a uma distância tão curta que completa uma volta inteira em apenas 26 horas. Para ter uma ideia do que isso significa, Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, leva 88 dias para dar uma volta. Essa proximidade extrema faz com que a temperatura na superfície do WASP-12b ultrapasse 2.500 graus Celsius, quente o suficiente para derreter a maioria dos metais. Mas o que realmente impressiona os cientistas é que o planeta está sendo literalmente devorado por sua estrela, perdendo sua atmosfera a uma taxa que pode ser medida ano após ano.
Os astrônomos descobriram essa destruição gradual ao analisar a luz que passa pela atmosfera do planeta durante seus trânsitos. Eles perceberam que a assinatura química do WASP-12b estava mudando, e que o planeta parecia estar envolvido por uma nuvem de gás que se estendia muito além do esperado. Essa nuvem é a atmosfera do planeta sendo puxada pela gravidade da estrela. O processo é tão intenso que o planeta pode estar perdendo o equivalente à massa da Terra a cada poucos milhões de anos. É uma destruição em câmera lenta, mas implacável.
O que é o WASP-12b e por que ele está perdendo sua atmosfera
O WASP-12b é um Júpiter quente, uma classe de planetas gasosos que orbitam muito perto de suas estrelas. Ele foi descoberto em 2008 pelo projeto WASP, que usa telescópios terrestres para detectar trânsitos planetários. Desde então, tornou-se um dos exoplanetas mais estudados por causa de sua órbita incomum e de sua atmosfera em fuga. A proximidade com a estrela é o principal fator que explica tudo o que acontece com ele.
A estrela do WASP-12b é uma anã amarela, similar ao Sol, mas um pouco mais quente. A atração gravitacional entre os dois corpos é tão forte que o planeta está sendo esticado, assumindo uma forma ovalada em vez de esférica. Essa deformação gera enormes forças de maré dentro do planeta, aquecendo seu interior e expandindo sua atmosfera. O calor intenso faz com que os gases mais leves, como hidrogênio e hélio, adquiram energia suficiente para escapar da gravidade do planeta. E a estrela, com sua gravidade imensa, puxa esses gases para si, criando um fluxo de matéria que vai do planeta diretamente para a estrela.
Os cientistas estimam que o WASP-12b está perdendo cerca de 10^11 gramas de material por segundo. Pode parecer muito, mas para um planeta gigante, é uma fração pequena de sua massa total. No entanto, esse processo está ocorrendo há milhões de anos e continuará até que o planeta seja completamente destruído ou se torne um núcleo rochoso exposto. É uma visão do destino final de muitos Júpiteres quentes que orbitam muito perto de suas estrelas.
Como os astrônomos descobriram a perda de atmosfera
A descoberta da perda de atmosfera no WASP-12b foi possível graças a observações com o telescópio espacial Hubble e com o telescópio espacial Spitzer. Quando o planeta passa na frente de sua estrela, parte da luz estelar atravessa a atmosfera do planeta. Essa luz carrega informações sobre os gases presentes, como hidrogênio, carbono, oxigênio e outros elementos. Ao analisar o espectro dessa luz, os cientistas podem determinar a composição da atmosfera.
O que eles encontraram foi surpreendente. A absorção de luz em certos comprimentos de onda era muito maior do que o esperado para um planeta com uma atmosfera compacta. Isso indicava que a atmosfera do WASP-12b se estendia por uma distância muito maior do que o raio do planeta, formando uma espécie de envelope de gás. Além disso, a assinatura espectral mostrava que a atmosfera continha elementos pesados, como magnésio e ferro, que normalmente seriam retidos por planetas mais frios. A presença desses elementos na camada externa era uma evidência clara de que o material estava sendo puxado para fora.
Observações adicionais com o telescópio espacial Hubble mostraram que o material estava se movendo em direção à estrela, formando um fluxo de gás que se estendia por milhões de quilômetros. Esse fluxo é tão denso que os astrônomos conseguiram medir sua velocidade e temperatura, confirmando que o WASP-12b estava sendo despojado de sua atmosfera de forma ativa. Desde então, o WASP-12b se tornou um laboratório natural para estudar como planetas gigantes interagem com suas estrelas e como eles podem evoluir ao longo do tempo.
As consequências dessa destruição gradual
A perda de atmosfera no WASP-12b tem consequências profundas para o futuro do planeta. A pressão na superfície está diminuindo gradualmente, e os gases mais leves estão sendo removidos primeiro. Com o tempo, a atmosfera pode se tornar tão fina que o planeta não conseguirá mais reter calor ou manter sua estrutura atual. Eventualmente, o planeta pode ser completamente desintegrado, restando apenas um núcleo rochoso que, quem sabe, possa se tornar um novo tipo de planeta, um planeta de carbono ou um planeta de diamante.
Esse processo também afeta a estrela. O material puxado do planeta cai na estrela, alterando sua composição química e sua rotação. Em casos extremos, a queda de material pode causar flares ou variações no brilho da estrela, que podem ser detectadas por telescópios. O WASP-12b não é apenas um planeta morrendo; ele está interagindo com sua estrela de uma forma que altera ambos os corpos.
O WASP-12b nos mostra que o universo é um lugar em constante transformação. O que parece estável e permanente, como um planeta ou uma estrela, pode estar mudando lentamente diante de nossos olhos. Essa percepção é ao mesmo tempo fascinante e humilhante. Nós, que vivemos em um planeta estável e em uma órbita confortável, podemos esquecer que a maioria dos mundos não é tão sortuda. O WASP-12b está lá, girando em torno de sua estrela como uma mariposa em volta de uma chama, consciente da sua destruição, mesmo que de forma inconsciente.
Cada observação do WASP-12b é uma oportunidade de aprender sobre os ciclos de vida dos planetas e sobre o destino final de mundos que nasceram e podem morrer. E, para nós, é uma chance de apreciar a estabilidade relativa do nosso próprio sistema solar, onde os planetas ainda têm bilhões de anos de existência pela frente.